Unidade Complexa
A Seguir mais um trecho retirado de “A Águia e a Galinha” de Leonardo Boff
Complexidade: a estrutura básica do universo
Todos esses pares são expressões da complexidade de uma mesma e única realidade. Complexidade é uma das características mais visíveis da realidade que nos cerca. Por ela queremos designar os múltiplos fatores, energias, relações, interretro-reações que caracterizam cada ser e o conjunto dos seres do universo. Tudo está em relação com tudo. Nada está isolado, existindo solitário, de si e para si. Tudo co-existe e inter-existe com todos os outros seres do universo.
A ciência moderna, nascida com Newton*, Copérnico* e Galileu Galilei*, não soube o que fazer com a complexidade. A estratégia foi reduzir o complexo ao simples. Por exemplo, ao contemplar a natureza, ao invés de analisar a teia de relações complexas existentes, os cientistas tudo compartimentaram e isolaram. Não consideraram relevantes os relacionamentos em todas as direções, para frente, para trás, para dentro e para cima, que todas as coisas e todos os seres (rochas, ventos, águas, florestas, animais, homens e mulheres) estabelecem entre si. Assim, começaram a estudar só as rochas, ou só as florestas, ou só os animais, ou só os seres humanos. Ou, nos seres humanos, só as células, só os tecidos, só os órgãos, só os organismos, só os olhos, só o coração, só os ossos, etc.
Desse estudo nasceram os vários saberes particulares e as várias especialidades. Ganhou-se em detalhe, mas perdeu-se a totalidade. Houve um formidável esquecimento do ser em favor do existente. Desapareceu, destarte, a percepção da totalidade e da complexidade.
Não existe a célula sozinha. Ela é parte de um tecido, que é parte de um órgão, que é parte de um organismo, que é parte de um nicho ecológico, que é parte de um ecossistema, que é parte do planeta Terra, que é parte do Sistema Solar, que é parte de uma galáxia, que é parte do Cosmos, que é uma das expressões do Mistério ou de Deus. Tudo tem a ver com tudo. A complexidade procura respeitar essa totalidade orgânica, feita de relações em rede e de processos de integração. A natureza e o universo não constituem simplesmente o conjunto dos objetos existentes, como pensava a ciência moderna. Constituem, sim, uma teia de relações, em constante interação, como os vê a ciência contemporânea. Os seres que interagem deixam de ser apenas objetos. Eles se fazem sujeitos, sempre relacionados e interconectados, formando um complexo sistema de inter-retrorelações.
O universo é, pois, o conjunto das relações dos sujeitos. As dualidades antes referidas são dimensões da mesma e única realidade complexa. Formam uma dualidade, mas não um dualismo. Errôneo seria confundir dualidade com dualismo. O dualismo vê os pares como realidades justapostas, sem relação entre si. Separa aquilo que, no concreto, vem sempre junto. Assim, pensa o esquerdo ou o direito, o interior ou o exterior, o masculino ou o feminino.
A dualidade, ao contrário, coloca e onde o dualismo coloca ou. Enxerga os pares como os dois lados do mesmo corpo, como dimensões de uma mesma complexidade. Complexo é tudo aquilo que vem constituído pela articulação de muitas partes e pelo inter-retro-relacionamento de todos os seus elementos, dando origem a um sistema dinâmico sempre aberto a novas sínteses. Elencamos abaixo alguns exemplos de realidades complexas, onde aparecem a dualidade e as dimensões de águia e de galinha.
a) A realidade feita de caos e de cosmos
A ciência contemporânea, a partir da nova física, da biologia molecular, da teoria geral dos sistemas, da informática, da psicologia transpessoal e do desenvolvimento da ecologia, se convenceu da importância da relação caos-cosmos, desequilíbrio-equilíbrio, desordem-ordem, na constituição do universo e na construção do humano.
Havia inicialmente um concentrado inimaginável de matéria-energia em perfeito equilíbrio. Sem sabermos por quê, ocorreu o big-bang*. Este significa a explosão potentíssima daquele concentrado, lançando energia e matéria em todas as direções. O big-bang expressa, assim, uma primeira e incomensurável instabilidade, um caos de dimensões incalculáveis. Tudo explode e se expande. A explosão significa a irrupção da desordem. A expansão, porém, significa a constituição da ordem. O universo, cada ser, cada coisa, contêm dentro de si os dois movimentos, o caos ( desordem) e o cosmos (ordem).
O caos não é simplesmente “caótico”. Ele se mostra generativo e autocriativo. Abre espaço para a organização e para a constituição de ordens cada vez mais elegantes (cosméticas) e portadoras de sentido. A situação atual é esta: o universo não é totalmente caótico, nem totalmente cosmético. É a combinação de ambos. Ele se apresenta ordenado a ponto de provocar o fascínio e a veneração dos maiores cientistas como Newton*, Einstein* e Prigogine*, e de cada um de nós, simples admiradores da criação. Ao mesmo tempo, essa ordem é frágil, submetida ao desequilíbrio e à situação de caos. Assim é o caminhar de todas as coisas: ordem-desordeminteração-nova ordem. O caos nunca é absoluto e a ordem, jamais estável. Tudo está em processo permanente e aberto, em busca de um equilíbrio dinâmico. Por isso falamos, com razão, de cosmogênese* e de antropogênese*. Quer dizer, em gênese do cosmos e em gênese do ser humano. Eles estão ainda em processo de nascimento. Não acabaram ainda de nascer. Não são perfeitos, mas perfectíveis. Esse processo, na medida em que avança, tende a criar mais e mais diversidades e, com isso, a reforçar a complexidade.
Ilya Prigogine, prêmio Nobel de 1.977, e sua equipe em Bruxelas e em Austin, nos Estados Unidos, tiveram o mérito de mostrar que a ordem se faz através da flutuação (desordem, distância do equilíbrio) .Essa lei não vale apenas para os seres vivos de sistemas abertos que sempre intercambiam com o meio, realimentam e refazem o equilíbrio dinâmico. Constitui, sim, o mecanismo principal do processo evolucionário em todos os domínios, nos campos energéticos, nos átomos, nas galáxias, nos sistemas biológicos, nas sociedades humanas, nas culturas e nas pessoas.
Desta forma, se tem hoje uma visão unificada da evolução que se estrutura na dinâmica tensa entre caos e cosmos, ordem e desordem. Sempre na busca de um equilíbrio dinâmico, capaz de realizar novas virtualidades presentes na criação.
Tal visão nos ajuda a iluminar o espinhoso problema do mal. Na perspectiva cosmogênica* e dinâmica, o mal é uma condição originária. A Força Criadora-de tudo faz e fez surgir os seres mais diversos, todos provisoriamente incompletos. Eles se vêem enredados na necessidade intrínseca de passar por vários estágios até chegar à sua plenitude possível. Nesse sentido, no nível humano, pecado seria rechaçar esta dinâmica, não querer crescer e resistir ao oferecimento de mais ordem e de mais vida.
b) A realidade como onda e como partícula
Além da dualidade caos-cosmos, existe a outra, a partícula-onda. Esta se apresenta também na própria estruturação da realidade, assim como é entendida pela ciência contemporânea.
Na década de 1920 deste século, cientistas como Niels Bohr*, Wemer Heisenberg*, fundadores da física quântica, e Albert Einstein*, com sua teoria da relatividade, construíram uma nova compreensão da estrutura da matéria. Os seres todos do universo não estão simplesmente justapostos uns aos outros ou aí jogados como bolas de bilhar se entrechocando. Eles constituem sistemas muito bem articulados onde todos têm a ver com todos.
Mais ainda. Eles são energia, densificada e estabilizada dentro de campos energéticos, sempre em movimento e em relação com outros. Todos os elementos atômicos e subatômicos apresentam um comportamento dual. Ora se comportam como partículas materiais, com massa concretizada num ponto específico do espaço, ora se comportam como ondas que se espraiam em feixes em todas as direções.
O observador humano está inserido intimamente em todo esse processo. De tal maneira que ele ajuda a determinar a natureza dos fenômenos. Se ele decide captar ondas, capta efetivamente ondas. Se quer, ao contrário, captar partículas, capta, infalivelmente, partículas.
A luz, por exemplo, constitui um caso paradigmático. Ela pode ser compreendida como onda, que atravessa de ponta a ponta todo o universo (Quem a empurra? Quem lhe dá velocidade? Eis enigmas ainda não respondidos pela ciência). Ou, como partícula material, que pode ser retida, estocada e desviada.
Como a luz, todos os demais fenômenos elementares apresentam a mesma natureza dual, ora de onda energética, ora de partícula material. Niels Bohr* sugeriu o princípio da complementaridade entre a partícula e a onda, como chave para entender, de forma global, a realidade. Embora pareçam contraditórios, os dois comportamentos de onda e de partícula se complementam. O paradoxo* pertence à dinâmica do universo. Tudo é complementar. A dualidade se insere numa totalidade, conferindo-lhe dinamismo e elegância.
Einstein* demonstrou com genialidade que matéria e energia são intercambiáveis. Matéria pode virar energia. Energia pode condensar-se em matéria. Expressou-o numa fórmula extremamente simples: E= mc2 (energia é igual à matéria quando submetida ao quadrado da velocidade da luz).
c) A unidade complexa corpo-alma
Também corpo-alma não são duas realidades justapostas do ser humano. São duas dimensões do único e complexo ser humano. Como conseqüência, não deveríamos falar de corpo e de alma, mas de homem-corpo e de homem-alma ou de mulher-corpo e de mulher-alma.
Cada um é totalmente homem/mulher-corpo na medida em que tem exterioridade. Que vive dentro de um certo sistema ecológico, no mundo concreto de uma raça, de um país, de uma parentela, de uma profissão. Que tem necessidade de comer, beber, vestir, morar, fazer amor. Que se encontra territorializado* pelo espaço e pelo tempo e submetido ao processo de desgaste da força vital até o seu lento e completo esgotamento pela morte. Na nossa metáfora*, essa dimensão-corpo corresponde, em nós, à dimensão-galinha.
Ao mesmo tempo, cada um é totalmente homem/mulher-alma na medida em que possui interioridade. Que capta a ressonância das coisas dentro de si, que experimenta e não apenas sabe e que se sente conectado com o cosmos como um todo dinâmico. Que se move no ilimitado do desejo, do sentimento, do amor e do pensamento. Que faz a ultrapassagem de todos os limites do espaço e do tempo (pelo espírito, habitamos as estrelas e temos o universo dentro de nós) .Que pode entreter uma relação de intimidade para com a realidade suprema, Deus. É a dimensão-alma que corresponde em nós à dimensão-águia.
O ser humano é uno e complexo, constituído de corpo-e-alma. Ele não tem corpo e alma. É corpo e alma. Pertence ao lado trágico de nossa cultura ocidental ter separado corpo e alma. Essa separação ocasionou, por um lado, o surgimento de uma cultura materialista assentada exclusivamente sobre o corpo, entendido como um objeto sem profundidade (alma). O império dos sentidos, do desfrute, da utilização das coisas para benefício do ser humano: o domínio da galinha. Por outro, favoreceu uma cultura espiritualista, baseada exclusivamente no espírito, na experiência subjetiva, desenraizada da matéria, pairando soberanamente sobre a densidade do real. Espírito feito refém de suas idéias, projeções e teorias, alienado da luta cotidiana e comum dos mortais. É o reino da águia.
“Galinismo”* e “aguiismo”*, materialismo e espiritualismo, positivismo e utopismo, derivam desse desvio da antropologia ocidental. Ao invés de expressar a complexidade da única e mesma realidade humana, essas categorias de pensamento acabaram por reduzi-la e por dividi-la. Criaram disjunções falsas e oposições excludentes: a galinha de um lado e a águia do outro. O corpo e a matéria de um lado e o espírito e a alma do outro. E, o que é grave, em guerra entre si.
Perdeu-se a complexidade e o jogo das relações de tudo com tudo. A matéria não é espiritualizada e o espírito não é corporalizado.
Vejamos um exemplo. Posso e devo analisar o Emanuel em sua complexidade concreta: brasileiro, branco, escolarizado, casado, taxista, torcedor do Fluminense, católico. Mora no subúrbio popular e é entusiasta da floresta vizinha, que freqüentemente visita com os amigos, recolhendo latas de coca-cola dos caminhos e abraçando árvores como fazem os chineses. Posso acrescentar mil outros dados concretos de sua vida e prática. É o Emanuel na sua dimensãogalinha, definido e enquadrado em uma realidade concreta e complexa.
Mas o Emanuel não é apenas essa dimensão. É uma fonte inesgotável de virtualidades e possibilidades: pode \mudar de nacionalidade, divorciar-se, tornar-se um chofer de caminhão, torcer pelo Flamengo e converter-se ao candomblé. Quem sabe, pode, por uma feliz oportunidade, revelar-se um artista de cinema, um excelente pintor retratista ou um poeta repentista. Pior, pode transformar-se num bandido, assaltante de banco ou assassino de crianças de rua. Pode também passar por uma crise religiosa. Fazer-se monge zen-budista, tornar-se um mestre espiritual e um santo.
Tudo isso compõe a realidade virtual do Emanuel. É o Emanuel na sua dimensão-águia.
A primeira dimensão – galinha – funda o positivismo. A segunda – a águia – o idealismo. Erro seria separar o que em Emanuel vem junto: sua , dimensão discernível, concreta e palpável – galinha. Ou, sua dimensão possível, virtual e utópica – águia. Não podemos fragmentar o Emanuel real. Ele é tudo isso, junto e simultaneamente, galinha e águia. Analisá-lo apenas por um ângulo é fazer-lhe injustiça. Ou o sepultaríamos em sua condição concreta, sem deixá-lo romper a estreiteza do galinheiro, condenando-o à situação-galinha. Ou o deixaríamos em suas possibilidades e promessas, sem criar-lhe condições de realização concreta, tolhendo-lhe sua dimensão-águia.
O factual e o virtual são simultâneos. O virtual pertence ao real, ao seu lado possível. O real é o virtual realizado, antecipado e historiado dentro das condições de nosso espaço-tempo. Portanto, sempre de forma delimitada e territorializada*.
O que dissemos aqui da dimensão corpo/alma, podemos também dizer dos outros pares ou dualidades referidas acima.
d) A unidade complexa fé-religião
A mesma dialética ocorre entre religião e fé. A religião é concreta. Possui credo, moral, teologia, santos e santas, hierarquia, templos, festas, ritos e celebrações. Não é permitido, por exemplo, celebrar publicamente uma missa católica de qualquer maneira, sem seguir o rito oficial. É a dimensão-galinha.
Mas existe a fé que significa o encontro vivo com Deus. Aqui não valem normas. Emudecem as palavras. Cessam as imagens. E empalidecem as celebrações, em face da grandeza transbordante de Deus. Diante da suprema Alteridade e do eterno Amor, o ser humano muda o estado de consciência. Entra num estado místico. Tudo fica numinoso* e carregado de energia divina. Deixa o universo para trás e se entrega reverente e silenciosamente ao Mistério. Ou estabelece um diálogo direto com o Supremo, onde palavras e conceitos eventualmente usados ganham uma significação transfigurada e metafórica*. Dessa experiência nasce toda a criatividade própria dos mestres do Espírito. É a dimensão-águia.
Por trás de toda religião institucionalizada se esconde a experiência espiritual de alguém que vivenciou a Realidade última. Assim o foi com Buda*, Moisés*, Jesus, Maomé*, Rumi*, S. Francisco de Assis* , o Mestre Eckhart* , S. João da Cruz* , Santa Teresa* , Gandhi* , Thomas Merton*, Simone Weil*, Dom Helder Câmara, Madre Teresa de Calcutá* , Dom Oscar Arnulfo Romero*, assassinado diante do altar em El Salvador, na América Central, e outros tantos.
Função da religião é criar as condições para que cada pessoa possa realizar seu mergulho no Ser e encontrar-se com Deus, Útero de infinito aconchego e paz. A religião representa a dimensão-galinha, a fé, a dimensão-águia. Ambas convivem e juntas devem colocar-se a serviço do ser humano e de Deus.
e) A unidade complexa ética-moral
Consideremos a tensão de uma outra dualidade, a ética e a moral. Talvez a etimologia das palavras ética e moral iluminem essa complexidade.
Ethos – ética, em grego – designa a morada humana. O ser humano separa uma parte do mundo para, moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda.
Na ética há o permanente e o mutável. O permanente é a necessidade do ser humano de ter uma moradia: uma maloca indígena, uma casa no campo e um apartamento na cidade. Todos estão envolvidos com a ética, porque todos buscam uma moradia permanente.
O mutável é o estilo com que cada grupo constrói sua morada. É sempre diferente: rústico, colonial, moderno, de palha, de pedra… Embora diferente e mutável, o estilo está a serviço do permanente: a necessidade de ter casa. A casa, nos seus mais diferentes estilos, deverá ser habitável. Quando o permanente e o mutável se casam, surge uma ética verdadeiramente humana.
Moral, do latim mos, mores, designa os costumes e as tradições. Quando ummodo de se organizar a casa é considerado bom aponto de ser uma referência coletiva e ser reproduzido constantemente, surge então uma tradição e um estilo arquitetônico. Assistimos, ao nível dos comportamentos humanos, ao nascimento da moral. Nesse sentido, moral está ligada a costumes e a tradições específicas de cada povo, vinculada a um sistema de valores, próprio de cada cultura e de cada caminho espiritual. Por sua natureza, a moral é sempre plural. Existem muitas morais, tantas quantas culturas e estilos de casa. A moral dos yanomamis é diferente da moral dos garimpeiros. Existem morais de grupos dentro de uma mesma cultura: são diferentes a moral do empresário, que visa o lucro, e a moral do operário, que procura o aumento de salário. Aqui se trata da moral de classe. Existem as morais das várias profissões: dos médicos, dos advogados, dos comerciantes, dos psicanalistas, dos padres, dos catadores de lixo, entre outras. Todas essas morais têm de estar a serviço da ética. Devem ajudar a tornar habitável a moradia humana, a inteira sociedade e a casa comum, o planeta Terra.
Existem sistemas morais que permanecem inalterados por séculos. São renovadamente reproduzidos e vividos por determinadas populações ou regiões culturais. Assim, a poligamia entre os árabes e a monogamia das culturas ocidentais. Por sua natureza, a moral se concretiza como um sistema fechado.
De que forma se articulam a ética e a moral? Respondemos simplesmente: a ética assume a moral, quer dizer, o sistema fechado de valores vigentes e de tradições comportamentais. Ela respeita o enraizamento necessário de cada ser humano na realização de sua vida, para que não fique dependurada das nuvens.
Mas a ética introduz uma operação necessária: abre esse enraizamento. Está atenta às mudanças históricas, às mentalidades e às sensibilidades cambiáveis, aos novos desafios derivados das transformações sociais. Ela impõe exigências a fim de tornar a moradia humana mais honesta e saudável. A ética acolhe transformações e mudanças que atendam a essas exigências. Sem essa abertura às mudanças, a moral se fossiliza e se transforma em moralismo.
A ética, portanto, desinstala a moral. Impede que ela se feche sobre si mesma. Obriga-a à constante renovação no sentido de garantir a habitabilidade e a sustentabilidade da moradia humana: pessoal, social e planetária.
Concluindo, podemos dizer: a moral representa um conjunto de atos, repetidos, tradicionais, consagrados. A ética corporifica um conjunto de atitudes que vão além desses atos. O ato é sempre concreto e fechado em si mesmo. A atitude é sempre aberta à vida com suas incontáveis possibilidades. A ética nos possibilita a coragem de abandonar elementos obsoletos das várias morais. Confere-nos a ousadia de assumir, com responsabilidade, novas posturas, de projetar novos valores, não por modismo, mas como serviço à moradia humana.
Não basta sermos apenas morais, apegados a valores da tradição. Isso nos faria moralistas e tradicionalistas, fechados sobre o nosso sistema de valores. Cumpre também sermos éticos, quer dizer, abertos a valores que ultrapassam aqueles do sistema tradicional ou de alguma cultura determinada. Abertos a valores que concernem a todos os humanos, como a preservação da casa comum, o nosso esplendoroso planeta azul-branco. Valores do respeito à dignidade do corpo, da defesa da vida sob todas as suas formas, do amor à verdade, da compaixão para com os sofredores e os indefesos. Valores do combate à corrupção, à violência e à guerra. Valores que nos tomam sensíveis ao novo que emerge, com responsabilidade, seriedade e sentido de contemporaneidade. Há pessoas que insistem em morar em suas casas antigas, sem delas cuidar e sem adaptá-las às novas necessidades. Elas deixam de ser o que deveriam ser: aconchegantes, protetoras e funcionais. É a moral desgarrada da ética. A ética convida a reformar a casa para torná-la novamente calorosa e útil como habitação humana. Como o filósofo grego Heráclito dizia: “a ética é o anjo protetor do ser humano”.
Por essa atitude ética, os atos morais acompanham a dinâmica da vida. Amoral deve renovar-se permanentemente sob a orientação e a hegemonia da ética. Cabe à ética garantir a moradia humana, sob diferentes estilos, para que seja efetivamente habitável.
Retirado do Livro ”A Águia e a Galinha” – Leonardo Boff